O Governo e a Farda

Reinaldo Azevedo

Só a política para fazer de um simples capitão o chefe de tantos generais. E o fato não deixa de ter a sua graça.O presidente eleito, Jair Bolsonaro, indicou para a Secretaria de Governo o general da reserva Carlos Alberto Santos Cruz, que Sérgio Moro, futuro ministro da Justiça, havia escolhido para a Secretaria Nacional de Segurança Pública. É o terceiro general da reserva com a função de ministro. Os outros dois são Fernando Azevedo e Silva (Defesa) e Augusto Heleno (Gabinete da Segurança Institucional). E mais um pode se juntar à turma: Joaquim Maia Brandão Junior, cotado para a Infraestrutura. O vice-presidente, Hamilton Mourão, como se sabe, também é general. A particularidade de Santos Cruz em relação aos demais é que ele é um general-de-divisão, com três estrelas. Os outros todos têm quatro e são os chamados “generais-de-Exército”, o topo da carreira em tempos de paz. O posto de “marechal”, a quinta estrela, foi abolido na reforma de 1967. Em caso de guerra, pode-se, excepcionalmente, conferir a um general-de-exército a quinta estrela. Nota à margem: Marcos Pontes, ministro da Ciência e Tecnologia, é tenente-coronel da Aeronáutica. O militar mais miúdo é aquele que a política fez o chefe de todos: justamente o presidente Jair Bolsonaro, que foi para a reserva como capitão. E isso tem lá a sua graça ou a sua ironia.

Gestão Bolsonaro não vai caracterizar um regime militar, mas é claro que será um governo bastante militarizado
Em uma das entrevistas que concedeu, Eduardo Villas Boas, comandante do Exército, reconheceu o risco de politização das Forças Armadas em razão da eleição de Bolsonaro e da ostensiva presença de militares da reserva em sua campanha e, como se vê, no futuro governo. Mourão, que também foi eleito, e os demais convidados para o cargo rechaçam a chamada “militarização” da gestão e tentam tratar como uma espécie de coincidência ou de aleatoriedade a onipresença de ex-fardados no governo que começa no dia 1º de janeiro de 2019. Não se confunda, por óbvio, um político que chegou ao poder por intermédio das urnas — ELETRÔNICAS, CLARO! — com alguém que senta na cadeira presidencial pilotando um tanque. Assim, não vamos viver sob um regime militar, mas é evidente que estamos num governo militarizado. Ou não há civis em número suficiente no país para desempenhar tais funções? Quero crer que sim.

É claro que Onyx, o civil, vai dividir espaço com Santos Cruz, o militar. E o papo de só confiar na mãe e no pai
Se faltava um sinal de que Bolsonaro quer, vamos dizer assim, submeter os políticos à lógica militar, ele veio agora com a indicação de Carlos Alberto Santos Cruz. E notem que há o risco de alguma bateção de ombro com quem não tem estrela nenhuma no peito. A Secretaria de Governo vai fazer também, está claro pelas entrevistas de Cruz, parte da articulação política, que estava reservada, até onde se sabia, ao civil Onyx Lorenzoni (DEM-RS). Dia desses, o presidente eleito, referindo-se ao fato de que há no Ministério Público Federal uma delação que acusa o deputado gaúcho de ter recebido uma outra parcela de R$ 100 mil do grupo JBS, esta não assumida, afirmou: “Cem por cento só confio no meu pai e na minha mãe”. E, creio, nos generais — desde que estes não sejam também políticos, se é que me entendem.

Santos Cruz diz que falará com todo mundo, incluindo esquerdas; fala é boa; a do civil Bebbiano havia sido ruim
Santos Cruz, o general que vai desempenhar a função de articulador político, concedeu entrevistas que são bastante tranquilizadoras, embora sua especialidade sejam mesmo as artes da guerra e da paz — conquistada esta no campo de batalha. Já serviu a missões no Haiti e no Congo. Ganhou experiência recorrendo à força, quando necessário, para, como ele mesmo reconheceu, impor a pacificação. Como deixou claro em entrevista, e com acerto, há circunstâncias em que o respeito aos direitos humanos passa por esse uso da força. Tudo isso pode fazer dele um militar exemplar. Mas o que tem a ver com a política? Como é que isso colabora para, por exemplo, convencer os parlamentares da necessidade de se votar a reforma da Previdência? O militar da reserva disse que vai conversar com todo mundo, incluindo os parlamentares de esquerda, se necessário, porque todos foram eleitos. Está correto. Aplaudo a fala. Não faz tempo, Gustavo Bebbiano, que ainda se apresentava como candidato a ministro da Justiça, afirmou que não haveria diálogo possível, de nenhuma natureza, com as esquerdas. Nesse particular, o futuro ministro da Secretaria de Governo, um militar, se mostra mais preparado, do ponto de vista dos valores ao menos, do que o futuro titular da Secretaria-Geral da Presidência.

É inútil tentar tapar o Sol com estrelas de generais, certo? Será uma gestão excepcionalmente militarizada
Mas não há como ignorar o fato de que Bolsonaro escala um general sem nenhuma experiência política, especialmente habilitado, reitero, para operações de guerra e assemelhadas, para lidar com os congressistas. Parece passar um recado: “Olhem aqui: esse assunto é sério; não me venham com coisa de políticos. Por isso, estou nomeando um general para a função”. Não adianta tentar tapar o sol com as estrelas, não é mesmo? Estamos diante de um governo eleito pelo povo, que atende, sim, a uma expectativa da população de que os militares podem resolver o que os civis esculhambaram. E isso, por si, não é bom. Aí entra o temor de Villas Boas, comandante do Exército: e se a coisa não der assim tão certo? O ônus recairá também sobre os ombros das Forças Armadas.

O fato de inexistir no mundo uma democracia com tantos generais nos deve pôr atentos. O tempo da política é outro
Acrescente-se o fato de que esse mesmo presidente fez questão de deixar claro, mais uma vez, que não pretende mesmo complementar seu primeiro escalão com indicações feitas por partidos políticos. Na primeira fila, há os que são de sua cota pessoal, os das bancadas temáticas, os de Paulo Guedes e a frente fardada, sim. Pode dar certo? Vamos ver. O fato de nenhuma democracia do mundo ter essa configuração nos diz como é a coisa lá fora. Para levar adiante seu programa de governo, seja ele qual for, Bolsonaro considera mais importante contar com esses generais do que negociar com os partidos. É uma aposta arriscada.
REINALDO AZEVEDO/montedo.com

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