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Topo da reserva militar recebe até R$ 450 mil enquanto milhares da base sobrevivem com salários próximos do mínimo

SOCIEDADE MILITAR


Pirâmide salarial militar mostra elite da reserva concentrando rendas milionárias, enquanto milhares sobrevivem com proventos insuficientes na base.

Uma análise detalhada nas planilhas de pagamento das Forças Armadas revela que oficiais generais na reserva chegaram a receber mais de R$ 450 mil em um único mês em 2025, enquanto a base da tropa enfrenta o que chamam de “inferno na terra”.

Nos últimos anos, o orçamento das Forças Armadas passou a chamar a atenção da sociedade sobretudo pelo peso das despesas com pessoal, que consomem cerca de 80% dos recursos destinados à Defesa. A partir desse contexto, uma análise da estrutura de remuneração dos militares da Marinha, do Exército e da Força Aérea na reserva remunerada, baseada em planilhas oficiais obtidas pela reportagem da Revista Sociedade Militar, relela uma assimetria estrutural profunda entre a base e a cúpula da instituição.

A análise das planilhas oficiais de pagamento de mais de 171 mil militares da reserva remunerada e reformados, referentes aos meses de agosto, setembro e outubro de 2025, revela uma pirâmide salarial invertida em sua lógica social: estreita para quem depende do soldo para sobreviver e amplamente expandida para um grupo restrito situado no topo da hierarquia.

Os dados indicam que a estrutura salarial das Forças Armadas não apenas reproduz as desigualdades existentes na ativa, como as acentua na inatividade, cristalizando realidades financeiras radicalmente distintas dentro de um mesmo sistema previdenciário. Enquanto milhares de famílias permanecem próximas do limite da subsistência, uma elite concentrada usufrui de rendimentos mensais capazes de redefinir completamente o padrão de vida em um único pagamento.

Em agosto de 2025, 659 militares da reserva receberam valores superiores a R$ 30 mil, 52 militares ultrapassaram R$ 50 mil, e 7 militares atingiram rendimentos acima de R$ 100 mil em um único mês. Já em setembro, a concentração no topo se manteve elevada: 645 militares receberam acima de R$ 30 mil, 71 militares ultrapassaram R$ 50 mil, e 15 militares tiveram rendimentos superiores a R$ 100 mil.

Mês (2025) Acima de R$ 30 mil Acima de R$ 50 mil Acima de R$ 100 mil
Agosto 659 52 7
Setembro 645 71 15
Outubro 685 87 16

Em outubro de 2025, os dados revelam um novo avanço da elite remuneratória. 685 militares da reserva receberam mais de R$ 30 mil, 87 militares ultrapassaram R$ 50 mil, e 16 militares atingiram rendimentos acima de R$ 100 mil. Em diversas planilhas analisadas pela reportagem, há registros de pagamentos superiores a R$ 400 mil em um único mês. Em outubro, por exemplo, dois militares receberam valores acima de R$ 450 mil, ambos oficiais generais da Força Aérea Brasileira.

Judiciário turbina salários: mais de 500 decisões em um mês

Grande parte desses pagamentos excepcionais encontra respaldo em decisões judiciais. Em setembro de 2025, por exemplo, mais de 500 decisões judiciais impactaram diretamente a folha de pagamento de militares da reserva e reformados. Em outubro, esse número subiu para 514 decisões, envolvendo revisões de proventos, pagamentos retroativos, indenizações e incorporações acumuladas ao longo dos anos, revelando que um grande número de erros administrativos pode estar impactando orçamento.

Topo e base – Excertos de planilhas oficiais de pagamento da reserva militar, com dados individualizados preservados por critérios jornalísticos

Embora a judicialização seja um instrumento legítimo, sua aplicação reiterada produz um efeito assimétrico: os principais beneficiários tendem a ser militares que ocuparam os postos mais elevados da hierarquia, com maior capacidade de acesso ao Judiciário, que demanda recursos para pagamento de advogados etc.

Ouvido pela reportagem, o advogado, mestre em Direito e especialista em Direito Militar, Cláudio Lino, alertou para a necessidade de responsabilização administrativa direta sobre quem cometeu os erros. Segundo ele: “União poderá buscar o ressarcimento dos valores despendidos com a condenação judicial, por meio de uma ação regressiva. Essa medida é fundamental para garantir a responsabilização dos agentes públicos e evitar que o ônus de seus atos ilícitos recaia sobre toda a sociedade“.

Na outra extremidade da pirâmide salarial, os números expõem uma realidade oposta. Em agosto de 2025, 2.154 militares da reserva receberam menos de R$ 2 mil, quase todos oriundos das graduações inferiores, geralmente abaixo de segundo-sargento. Em setembro, esse contingente subiu para 2.186 militares, e em outubro, alcançou 2.192 militares abaixo desse patamar.

Militares idosos com salários de 1.5 ou 2 mil reais

Os dados revelam que, enquanto centenas de militares concentram rendimentos elevados e dezenas atingem cifras excepcionais, milhares de militares da reserva permanecem presos a uma base salarial estreita, com valores insuficientes para cobrir despesas básicas como alimentação, moradia, medicamentos e cuidados de saúde, justamente no período da vida em que, idosos, essas necessidades tendem a aumentar.

Um militar da reserva da Marinha do Brasil, ouvido sob a condição de anonimato, explica que há um número muito grande de militares reformados com pagamentos baixos, que no passado era comum a transferência para a reserva remunerada em baixas graduações: “se ia pra reserva como cabo na Marinha e no Exército e não tinha promoção pra quem não entrou por concurso, imagine você idoso ganhando 1,5 ou 2 mil reais, é o inferno na terra“.

Salário da elite das Forças Armadas é suficiente para sustentar a base por dois meses

O contraste se torna ainda mais evidente quando se observa que, em outubro de 2025, o valor total recebido pelos 100 militares situados no ápice da pirâmide salarial somou R$ 8,7 milhões. Esse montante seria suficiente para pagar, com folga e por dois meses seguidos os salários de 2.192 militares da base, que receberam menos de R$ 2 mil no mesmo mês.

O conjunto dos dados traça um retrato inequívoco: a pirâmide salarial das Forças Armadas é larga na base e financeiramente pesada no topo. As desigualdades hierárquicas da ativa não apenas se mantêm na reserva, como se consolidam e se aprofundam ao longo do tempo por meio de mecanismos legais, administrativos e judiciais.

Para a maioria dos graduados das Forças Armadas, a passagem para a inatividade representa estagnação, perda de poder de compra e vulnerabilidade econômica. Para um grupo restrito da cúpula, significa a consolidação de rendas acima da média nacional e, pelo que se viu na documentação oficial, frequentemente impulsionadas por decisões judiciais generosas.

Mais do que um debate contábil, a distorção da estrutura remuneratória dos militares na reserva aparentemente expõe um problema de equidade, sustentabilidade orçamentária e coesão institucional. Em um cenário de evasão, desmotivação e desgaste da imagem das Forças Armadas, manter uma estrutura tão assimétrica tende a aprofundar fissuras silenciosas, mas cada vez mais visíveis, como é o caso da evasão que tem escalado ao longo dos últimos anos.


Edmilson Braga - DRT 1164

Edmilson Braga Barroso, Militar do EB R/1, formado em Administração de Empresas pela Universidade Federal de Rondônia e Pós-graduado em Gestão Pública pela Universidade Aberta do Brasil.

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