Crônicas Guajaramirenses

REFLEXÕES PARA A VIDA OU…

CRÔNICAS GUAJARAMIRENSES


Há um provérbio greco-romano que diz: “queres viver muito, pensa na Morte!” Com efeito, esse pensamento nos induz à finitude da existência, mas também nos conduz à ideia de que devemos vivê-la com sabedoria. Nenhum ser vivente no planeta jamais poderá intuir que aqui permanecerá perene e eternamente!

Todavia, há que se ter a certeza da morte como um fato normalíssimo, por ser natural. Ela deve nortear o foco de todos os humanos, organizando as nossas perspectivas na prática de princípios que elevem hinos à honestidade e à humildade, dizendo um “não” às futilidades, às superficialidades, ao ódio e à vaidade — inclusive com um desapego aos bens materiais, posto que para o “andar de cima” nada levaremos.

Sem ser carola, informo que, por viver em área rural, pouco frequento as missas, mas consagro a minha crença na existência de um só Deus como uma filosofia racional. O mundo islâmico também mantém o princípio do comando universal através de Alá, seu único Deus, e defende o amor divino e a purificação da alma. Todavia, ao contrário dos seus radicais e extremistas, jamais evoquei situações que pudessem me conduzir à violência e ao terrorismo — nem na juventude, quando alguns da minha geração tentaram derrubar o regime militar, levando à morte muitos civis inclusive. Também concordo que uma Entidade poderosíssima comanda os mundos, gerindo-os através de anjos, arcanjos, querubins e serafins.

E, nessa consideração estoica, vou me defendendo das tentações mundanas com muita galhardia. Contudo, toda vez que morre um amigo ou pessoa próxima da família, sobrevém-me a pergunta: – Quando chegará a minha vez?

Assim, meditando sobre a morte — um mote inevitável nas considerações dos meus pensamentos —, já senti que não a temo como antigamente. Com os filhos criados e bem formados, acho que eu e minha mulher cumprimos o nosso desideratum, como premiados (ou punidos) nascidos aqui na Terra.

Nas pesquisas que faço para escrever meus romances, anotei que essa reflexão sobre a vida e a morte permeia o universo emocional de integrantes de muitas famílias. Em uma delas me vi, quando o autor nos ensina que esse provérbio “o acompanha há anos não como uma sombra, mas como uma luz que ilumina o seu caminho”.

Essa é uma realidade da qual nenhum ser, racional ou não, poderá fugir ou contra a qual poderá insurgir-se. Para compreendê-la, basta se inspirar em Jorge Luis Borges (1899–1986), célebre escritor argentino — considerado um dos maiores nomes da literatura universal do século XX, poeta, contista, tradutor e ensaísta — que nos legou o poema “Instantes[1]“:

“Se eu pudesse novamente viver a minha vida, 

na próxima trataria de cometer mais erros.
Não tentaria ser tão perfeito,
relaxaria mais, seria mais tolo do que tenho sido.

Na verdade, bem poucas coisas levaria a sério.
Seria menos higiênico. Correria mais riscos,
viajaria mais, contemplaria mais entardeceres,
subiria mais montanhas, nadaria mais rios.
Iria a mais lugares onde nunca fui,
tomaria mais sorvetes e menos lentilha,
teria mais problemas reais e menos problemas imaginários.

Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata
e profundamente cada minuto de sua vida;
claro que tive momentos de alegria.
Mas se eu pudesse voltar a viver trataria somente
de ter bons momentos

Porque se não sabem, disso é feita a vida, só de momentos;
não percam o agora.

Eu era um daqueles que nunca ia
a parte alguma sem um termômetro,
uma bolsa de água quente, um guarda-chuva e um paraquedas e,
se voltasse a viver, viajaria mais leve.

Se eu pudesse voltar a viver,
começaria a andar descalço no começo da primavera
e continuaria assim até o fim do outono.
Daria mais voltas na minha rua,
contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças,
se tivesse outra vez uma vida pela frente.

Mas vejam só, tenho 85 anos… e sei que estou morrendo!”

E acabo concordando parcialmente com Jorge Luis Borges  (ou com Nadine Stair) e com muitos dos meus amigos, que reconhecem e lamentam ter deixado de abraçar pai, mãe, tios, avós, genros, noras, irmãos e sobrinhos, dizendo do amor que por eles guardavam dentro do peito. Teriam acarinhado mais os filhos e os netos; enfim, teriam falado da imensidão do amor que sempre acalentaram e nutriram suas almas, sem que antes tivessem expressado a real intensidade dos seus sentimentos.

E, concluo afirmando que há, nesse despertar tardio, uma melancolia comum que une quase todos nós: o arrependimento silencioso de ter guardado no peito o amor, o afeto e o carinho que deveriam ter sido partilhados. Descobre-se, enfim, que a maior falta não está no que se viveu, mas nas palavras de ternura que, na comunhão do cotidiano com os seus, deixou de proferir ao longo de toda uma existência.

[1] . O texto original (intitulado “If I Had My Life to Live Over”) costuma ser atribuído à poetisa norte-americana Nadine Stair. (IA)


Edmilson Braga - DRT 1164

Edmilson Braga Barroso, Militar do EB R/1, formado em Administração de Empresas pela Universidade Federal de Rondônia e Pós-graduado em Gestão Pública pela Universidade Aberta do Brasil.

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